quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dormir...






Vozes, muitas vozes, a vida corre solta, olho em volta,
caos e multidão, sonâmbulos perambulam na solidão do
dia, outra vez a calma adia a visita ao lar de inquietação
chamado coração; muitos sonham acordados pela cidade
em transe, as pessoas e seus determinados destinos, insone,
sem paz e sem nome vaga o menino perdido, tanto pra deixar
para trás e não olhar jamais, os pobres pés calejados pelo pedregulho
do orgulho, e lá mais nada floresceu, hoje anoiteceu  no interior de muita
gente, fotografias e declarações perdidas, sentimentos incinerados, muito
de passado apagado, esquecimentos e tal, tudo não passou de um dia mal,
recordar agora é crime, encaro a vitrine e fico meio sem jeito, lembro que
ainda tenho várias imagens a serem deletadas do banco de dados do peito,
o cheiro de pétalas  no ar, as pálpebras enfim pesam, eu tenho muita gente
pra esquecer, olho o meu reflexo mais uma vez e me entristeço com as primeiras
rugas, ah, doce escape, nem lembro mais como era ter skype, e não, eu  não sou
o único que planeja uma fuga até antes do amanhecer...

sábado, 27 de agosto de 2016

Coração nômade






Eu sou o branco dos olhos, o vago olhar do palhaço trajando
seu velho terno amarrotado num parque abandonado, mesmo
sob um céu de verão, ainda assim pertenço ao inverno; eu sou
a última carta guardada de lembrança, o envelope "amarelando"
nas profundezas da cômoda da menina que seguiu  em frente na
vida, sou ex-amor, ex-amigo, carrego sempre comigo um utópico
sentimento cego porque os que bem enxergam não têm o ilusório
benefício da surpresa, eu sou invisível fugindo desesperadamente
do previsível, eu sou a incerteza de "quem deixou a segurança do
seu mundo por amor", eu sou o abrigo encontrado no peito do meu
traidor, sou fã de Cazuza, sou fã de Renato, sou anônimo, sou abstrato,
nem azul, nem castanho, eu sou um estranho com o peito cheio de abrolhos,
sou neutro, eu sou o branco dos olhos...

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dai-me uma porra de estrutura!





O dia claro, a alma escura, não é
mera frescura sentimental quando
o peito se sente mal, a melancolia
da imagem da guria me tirou toda
a graça do sol, o ódio mortal que tenho
desses débeis "joguinhos" de amor, e a
minha disposição dia após dia se deteriora,
a moça cada vez mais bonita e a minha saúde
mental piora; não sabia mais distinguir entre
realidade e violentos devaneios, do terraço eu vi
pássaros de aço sobrevoando um céu em tom lilás,
do alto deste prédio de Niemeyer feito de peças de
lego, me pego pensando na estranha moça do Sul,
sempre me aparecia tão carente, mas me esquecia
de repente, e foi na névoa das lembranças esvaídas
que aproveitei pra tocar a vida porque ela não passava
de um desgaste para os meus ossos, linda e corrosiva,
atenciosa quando me distanciava, evasiva sempre que
me declarava, a alma escura, o dia claro, e peço a Deus
todo santo dia um pouco mais de estrutura à espera desse
tal amor raro...

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um interno na ala dos vencidos







As pessoas ao redor deixaram de acreditar, mas
meu coração ainda sente, só que não mente mais.
Nas milícias da mente, em uma introspecção, um dia
cheguei à conclusão que me faltava malícia, à espera
de nada, por muitas vezes fiz da ilusão uma ponte que
me levava de volta à estrada por onde os felizes trafegavam,
meus olhos sempre negavam as rejeições, inventando cenários
por onde passeávamos de mãos dadas, lugares lindos por onde
a gente se perdeu, a doce moça imaginária e eu; em minhas fantasias
tudo o que eu ouvia era a voz suave dela e o canto dos pássaros, o que
na verdade era apenas o som da minha risada que ecoava naquele ambiente
fechado, já há muito, muito tempo internado, e talvez ninguém mais ouça na
cidade, talvez ninguém mais saiba que sob essa camisa de força ainda existe
um último resquício de lucidez chamado...saudade.

domingo, 14 de agosto de 2016

MM's dream(Sonho de Marisa Monte)






Sonho da estradinha vazia, "nenhuma pessoa sozinha ia, nenhuma pessoa vinha",
versos do alcoólatra melancólico pelo chão de terra batida, um estranho cenário bucólico tão longe da terra prometida, e mesmo assim tudo ali denunciava o quão não andava bem, e "se ela me deixou a dor, é minha só, não é de mais ninguém"; entre árvores de galhos secos e folhas mortas caminhava sem pressa, nem muita vontade de viver, e o que mais podia fazer? O breu daquela noite de abril me encarava de uma forma incômoda, daquele dia então lembrei, "e quando perguntei, ouvi você dizer que eu era tudo que você sempre quis, (Bem que se quis), mesmo triste eu tava feliz", sempre às voltas com a ilusão de ser enfim alguém pra alguém e não há quem realmente se importe ou entenda, talvez eu até aprenda, mas é quase certeza que nunca, um vazio sem tamanho e só pra esclarecer, "na verdade não consigo esquecer, não é fácil, é estranho", então amanhece o dia, o pesadelo se transformou em apelo, permanece a mesma esperança que o pobre otário tinha, "o meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você, um dia eu vou estar contigo e você vai estar na minha".

Referências(canções):Alta Noite, De Mais Ninguém, Ainda Lembro, Não é Fácil e Eu Sei(Na Mira)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Devaneios na varanda do mundo





Mãos no queixo e me deixo perder no longínquo universo dela,
reclinado na varanda do mundo, nostálgico como há muito não
tenho estado, cruel por demais é a distância de nossos estados,
mas é que durante todos esses anos aqui não encontrei quem me
visse assim tão por igual como ela me viu em suas noites solitárias
de quarto; indiferente o céu sorri de canto de lábios com a lua minguante
no preciso instante que nossos olhares se encontram no espaço toda vez
que a gente encara o absoluto nada, e a cidade vai perdendo a graça à cada
final de semana, gente, drogas, passeio, nada disso me anima, o clima é de
saudade ao som de "Sol de primavera", me sinto meio morto, e sobre o tão
sonhado dia de buscá-la no aeroporto, ah, quem dera...

domingo, 7 de agosto de 2016

O doce exercício que é recordar o que enfim passou...e continuar agradecendo.




Havia uma pista de dança na minha cabeça
cheia de gente movendo-se ao léu num triste
transe, era uma angústia que não me permitia
notar o brilho do sol nem aproveitar a beleza
do céu, era uma dor constante, um vazio a cada
pensamento, um contratempo como uma coleção
de vários exemplares do mesmo livro na estante;
pela estrada melancólica eu dirigi lentamente ao som
da mesma canção irritante, não era possível desligar
o rádio, não me era permitido acelerar nem parar o
veículo e seguir à pé, a fé diminui e o mundo roda,
a meta era sumir, esquecer quem nunca me permitiu
na mente foi bem foda, mas quando dei por mim já era
agora e a imagem dela já não me trazia nenhuma emoção,
podia ouvir qualquer coisa à respeito sem sentir o coração
como um lar desfeito, levantara dentre os escombros da
casa de sentimentos vãos que um dia desabou sobre mim,
havia voltado a tranquilidade da escuridão onde era possível
deitar e dormir sem mais assombros...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Um portal para o recomeço





Tentava mas não conseguia lembrar aonde estava, em alguma parte da cidade deparei-me com um estranho beco sem saída, era a lateral de um prédio velho com paredes de tijolos vermelhos e um desenho tosco de uma porta, num impulso me aproximei e curiosamente pude abri-la, com certo receio adentrei aquele lugar surreal e à primeira vista nada encontrei, era um espaço completamente em branco, tipo o nada absoluto, aquele lugar era minha completa perda de memória...lá eu nada recordava, não havia alegria, nem dor, era um ambiente incolor; tateei possíveis paredes invisíveis quando percebi que meus dedos tinham formas de lápis de cor, senti liberdade de inventar um cenário, criei uma casa bem modesta afim de receber meus amigos imaginários, mentalizei até um amor gentil pra mim, alguém de beleza e estatura mediana, tímida e tão simples como a flor que eu desenhei no vaso da janela, tinha real interesse na minha pessoa, não tinha dedos em riste, nem tampouco olhos de acusadora, tinha ares de protetora, uma companhia realmente agradável, nossos nomes já nem importavam, não era incômodo algum a falta de assunto, aproveitávamos o silêncio juntos, mas quando estava prestes a sentir o calor dos lábios dela meus olhos abriram e a única visão que eu tinha era do teto, tristonho despertei de um bom sonho, era uma manhã de segunda, o primeiro dia de outro ano incerto...