sexta-feira, 29 de maio de 2015

Inalcançável





Vejam só aquele rapaz de camisa amarrotada
do outro lado da calçada, uma nuvenzinha cinza
sobre a cabeça e uma desértica ilha invisível ao redor
de si, os velhos tênis de cadarços desamarrados, a alma
em farrapos pela solidão do corpo há muito sem toque, tanto,
tanto tempo, nada pra ninguém, e o pobre coração desesperadamente
tenta acreditar que não; vazio e escuridão em plena multidão de rostos
translúcidos e ele lá torcendo pra não ser reconhecido, virou costume
sentir-se esquecido, some e torna à sumir mas não crê que darão por falta,
mesmo nunca deixando de sentir falta, só não dá pistas, não olha, não pergunta,
alheio ao mundo de tanta gente rasa quanto o mar tão profundo, de modos que
todos ao redor desistem de conhecê-lo melhor, o louco, o inconveniente e eles
nem sabem a dor que ele sente por ser assim tão incomum, implora o céu do quarto
onde pode livremente dar seu melhor sorriso triste típico dos conformados porque a
vida é de se acostumar, tranque a porta e seja bem-vindo ao refúgio dos derrotados...

terça-feira, 26 de maio de 2015

Janete




A insatisfação no meu rosto em desfoque,
o silêncio da ausência do som do toque do
telefone, voltar pra casa só, gostar de quem
nem sabe meu nome, uma vida dividida, algo
que nunca me coube, memórias de certas coisas
que nunca soube, bem, basicamente essa é a minha
história; meu coração é um vago vagão do vasto
trem dos dias, as paisagens distantes pela janela no
mesmo instante em que ela acorda no seu quarto tranquilo
do mundo...nem uma aventura em especial na noite passada,
nada demais, no mais espreguiça-se num bocejo sorrido,
pensando naquele marzão comprido de tristezas rasas, os
vasos de flores nos parapeitos das casas, o cheiro de maresia
mistura-se com o do asfalto, lá fora a cidade gargalha alto,
uma necessidade desmedida de atenção, berros de falsa felicidade
enquanto a moça dobra a barra da calça, indiferente às alegrias vazias
e volta a pôr seus doces lábios sem adorno no canudinho em ritmo de
bossa, e assim Janete toma sua grapette, encontrá-la um dia...tomara.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Tatuei-me em prol do desvencilhar de uma dor maior


Outra vez virou mito, lamentos, lamentos,
lamentos, e lá se foram as últimas fagulhas
de um sentimento bonito; sob o efeito das
agulhas, o ardor da pele, a carne crua, o brilho
da lua me inquieta como a memória da tua risada
esperta, novamente expus meu corpo aos riscos
na tentativa de apagar da mente os riscos que corri
em vão, e não foram poucos por quem apenas desdenhava
pela cidade, apesar da intensidade e a maneira como a desenhava
nos meus sonhos mais utópicos, a imaginação na ponta dos dedos
nos teus traços mais delicados do que realmente são, aquele teu jeito
familiar de não me querer fazendo-me abandonar os últimos vestígios
de menino são, o vento sopra, a noite corre ligeiro, o sangue escorre
pelo braço que nem a saudade dos abraços teus que nunca tive, e assim
a máquina não para, o tatuador à sorrir, pobre homem, na ilusão que a
dor do aviãozinho de papel desenhado é a que mais me machuca no momento,
a última lembrança dela partindo, a triste visão da nuca, uma nova tatuagem e
lá se vai mais uma esperança de um novo sentimento...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Jujuba eyes



Anos à fio de condicionamento às constantes
persuasões do mundo,um tipo quase sem opinião
fadado ao mau funcionamento até o não bater do
coração, praticamente a vida mais desinteressante
dentre os amigos,mendigo sempre às portas da rejeição
porque ninguém está afim de saber o que se passa em meu
minúsculo universo em crise, desprezados versos, frustrações
em reprises e lá vou eu reclamando de novo na falta de algo novo,
recortes de revistas e fragmentos de rostos nos filmes que idealizo,
a diferença entre aquilo que desejo e o que realmente preciso, oh, Deus,
pra onde eu olho, sinto almas infestadas pelo veneno urbano, foda-se se sou
capricorniano, as ciladas do poeta ingênuo sem ter no final à quem dedicar,
não, não me diga que é mera frescura sentimental, e quem, quem me achará
nas primeiras horas da manhã escura, ainda ontem eu tive um sonho tristonho
com a garota do rosto translúcido, mesmo lá tua pele me fazia querer chorar,
sorrisos de dentes imperfeitos, doces olhos de jujuba, me anima, me perturba,
pra lá e pra cá, acordo sem jeito na certeza que gente nunca se encontrará...

terça-feira, 12 de maio de 2015

Pseudo-poeta, legítimo vazio






Para um dia de excessiva cor,
todas as janelas abertas, minha bic
escrita fina quase pelo fim na tentativa
de assim descrever o dissabor do pseudo-poeta,
ó, minha cara, te escrevo porque não me atrevo à
dizer na tua cara tudo o que pretendia, nem sobre
o que me prendia e ainda me prende à ti! Oi, olá,
meu nome é desastre, meu sorriso disfarça toda
a frustração na minha voz, nós? Bem, acho que não...
tenho quase que certeza plena que para ti não valho
à pena, acho que nunca cairei nas graças desse teu
admirável olhar singular, beijar no rosto, pegar na mão,
ah, não, outra vez um tolo exposto ao sol e só, adoro
pão-de-alho e canto mal pra caralho mas sonho com
nós dois numa canção de chuveiro, um dueto, o passar
dos anos, que o bom Deus me ajude, pois meu gostar
está ficando mais e mais obsoleto...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Aquele disco do Smiths


Tédio, um estrelado céu lá fora,
um porre de melancolia sonora
e eis um ébrio! Triste sem, é, eu
não tô bem, eu troco nomes, eu
me confundo, ah, aqueles dias em
que eras cá meu mundo, dona do
meu ser e do pequeno cômodo onde
durmo, hoje apenas um infeliz incômodo
e à cada lembrança tua eu sumo; escondido
pra ninguém achar, um vaso sem água e uma
rosa à murchar em mágoas de um olhar frustrado,
um porre de melancolia sonora, lá fora o céu estrelado,
no prezado momento a beleza me dói e o som do Smiths
me corrói, outro escurecer e outro alguém pra esquecer...

sábado, 2 de maio de 2015

As palavras de um menosprezado anti-social






Miserável soul, miserável eu sou rastejando
pelo deserto do teu esquecimento a céu aberto,
rotas roupas de uma alma intranquila, entorpecida
mente só pelo simples fato de tê-la visto novamente;
sob a glória do astro-rei era eu apenas um sedento plebeu
à espera de uma chuva diferente, daquelas que misteriosamente
trazem gente nova e a vida então se renova, gente "desprovida"
de preconceitos tolos para prestar mais atenção na gente, gente
para nos ajudar à estar de pé, gente pra querer saber como a
gente realmente é, confesso, ultimamente tenho odiado mais
gente...do que de costume, meu caótico coração assume, ano
após ano, preciso um pouco mais de ciência para estar um pouco
mais à par de mim porque eu não tenho paciência, mano! Porque
eu não tenho paciência, mano! Porque eu não tenho paciência,
mano! Mas digo entre os dentes que sem vocês eu não consigo,
rostos para readicionar à linha do tempo das boas memórias e
outras tantas caras medíocres para deletar e bloquear!