terça-feira, 24 de março de 2015

A estranha e o perdedor




Névoas de uma manhã de domingo,
nesse exato momento ambos despertam
cada um na sua extremidade da cidade,
na falta de afeto, ainda deitada ela encara
o teto, misérias e afins, "Por que será que
ninguém vê nada em mim?", espontânea
indagação simultânea em seu olhar parado
na janela e ele nem sabe da existência dela
mas persiste na fé que alguém assim existe
e há de salvá-lo em algum desses dias frios
de desesperança, ambos solitários desde criança
sempre em segundo plano e alguns anos depois
a descoberta da triste realidade, nunca tiveram
amigos de verdade; e lá se vai mais um mês,
ela adora inglês e seriados, ele adora pedalar
ouvindo música mas detesta feriados, ambos
são anônimos, quase sinônimos, amadores, nunca
deram "bola" para suas dores pessoais, sem ninguém
ao lado, os tais fracassados, um amor platônico do outro,
não tão espertos, mas tão, tão  perto, ainda não se conhecem,
bem, talvez nunca se encontrem.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Desiste




Pelas manhãs escrevi,
chorei em portas estranhas,
melancolia, eu vi você desaparecer
daquela nossa melhor fotografia juntos
e não por falta de assunto, bem, não sei
se por efeito do vinho, me vi sorrindo sozinho
sob um sol vil com pose de imbecil metido à feliz,
eu disse "xis", a vida disse "se" e a minha querida
disse "Foda-se!", talvez o vazio logo acabe, pelo
retrovisor a dor ficou pra trás, talvez nunca mais,
mas sei lá, quem sabe...

segunda-feira, 16 de março de 2015

C'est lavie, tanto faz





Dois pra lá, um pra cá,
e a estrada da vida então
divide, ah, solitária caminhada,
lugares ermos, duvide não, eu
posso sim prosseguir só falando
comigo mesmo, já nem importa
mais quantas vezes abandonado,
e daí se tanta gente esqueceu que
estou aqui do lado; ora, vejam só
aquela moça que prometeu não ser
só mais uma frustração. fingiu não
ter me visto na estação do trem e saiu
mostrando ao mundo que estava super
bem, tristemente sorri e segui calmamente
pela rua escura recebendo o amor gratuito
nos mais belos amplexos da lua, tento, tento,
eu tenho o benefício do esquecimento a cada
fim do dia ao encontrar a mais macia e afastada
nuvem pra deitar...

sexta-feira, 13 de março de 2015

No papel e virtualmente



Lábios, escancarados lábios,
mal sabe a moça do Sul que
a alegria quase não cabe, mas
de fato ela adorou aquele meu
retrato, em pé do lado da minha
velha bicicleta com aquela blusa
de mangas cortadas do Nirvana em
um fim-de-semana qualquer; até que
enfim recebeste minha carta, disse que
leu em uma praça deserta sob a luz da lua,
o que ela não sabe é que nos últimos meses
tenho morado na rua, desempregado, arrumei
uns trocados pro correio e pro cyber café, sem
jeito ela confessou ter sonhado comigo, lábios,
escancarados lábios, a alegria quase não cabe,
quem sabe um dia ela não seja pra mim mais do
que uma foto de perfil, às vezes a vida é mesmo
uma merda, faltando 3 minutos pra acabar minha
hora, quando eu ia ler o que ela escreveu na minha
linha do tempo, a maldita conexão caiu.

domingo, 8 de março de 2015

Através dos olhos alheios



O peso de um mundo à desmoronar,
os pés descalços sobre um cigarro aceso, 
o pessimista egoísta, o insignificante arrogante
infantilmente à indagar por que será que os melhores
amigos dela tinham que ter carro; o mar nublado e o
céu despedaçado de nuvens espalhadas que nem chão
de terra seca, a visão tranquila do calçadão, mas chovia
apenas na ciclovia onde eu pedalava de volta pra casa,
através dos olhos alheios, receios,através dos olhos alheios
em sua própria direção, rejeição...

quarta-feira, 4 de março de 2015

MMD(Monólogo movido à doritos)



Verdade seja dita, já me dei bem mais às angústias
de sentir-me descartado, hoje aceito melhor meus
devidos esquecimentos e vou pro mar à passos lentos,
um pouco triste ainda, assobiando Caetano:"Você é linda",
pois é, a prática da solidão nunca leva à total perfeição, mas
eu vou tentar me contentar em mais uma vez ser ninguém pra
alguém, um "beck" e um bom livro que é pra ver se me livro
dos teus flashbacks, meu coração enfim assume, mãe, virei ateu
ao deus dos costumes, à beira do asfalto, do alto do viaduto contemplo
o centro da cidade, não sou um herói, nem tampouco suicida, é só um
monólogo de um menino e seu doritos pensando com nostalgia na vida...