terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Sorrisos finitos





De mãos atadas e amordaçado me lamento,
aqui do porta-malas deste automóvel lento eu tenho
uma visão limitada da calçada; daqui eu vejo uma garota
com dentes à mostra, sorridente, parece bem apaixonada
e assim segue uma avenida com muitas luzes e pessoas
"inabaláveis", é uma visão que me cansa desde criança,
"Ei, vocês aí, super felizes, tem um suburbano aqui com
dificuldade de respirar!", mas eles me ignoravam como
a escória dos animais, estavam radiantes e querendo mais,
mal sabiam eles que eu já não sou como era antes, tive que
me acostumar à estar preso, tive que aprender à me conformar
com o desprezo já que não era permitido um salto para sumir
no espaço, não podia desistir, não podia deixar de sorrir nem
que fosse debilmente, estava escrito, a gente deveria se virar nesse
universo restrito, bem, ainda tinha meus versos, aplicava I Am A
Rock de Simon como filosofia, "Escondido em meu quarto, seguro
em meu quarto, eu não toco em ninguém, ninguém toca em mim", ah,
vida, nunca descobrirei porque vim, um choro preso, fico sem fala, mas
sabe, nem que eu me arrebente na fuga deste veículo em movimento, um
dia eu salto deste porta-malas!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

"Incidentalmente"



E os acasos continuam,
a saber, os mais detestáveis
possíveis, cruzar com mundos
que intencionalmente mantenho
à distância, eu não preciso, ver
partir ao longe quem eu gostaria
de trocar aquele reles sorriso, ilusão
ou não, pouco importa, permanecem
os devaneios de uma boa colisão, continuo
batendo em estranhas portas, os dias são longos
e as noites são bruscas, o vazio nunca deixa de me
acompanhar nessas tais buscas, de tempos em tempos
a sorte me abandona, porra, eu realmente não consigo
entender como é que isso funciona!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Um morto assobiando...


Negro mar suspenso, 
céu de imensidão, sorrisos lascivos 
da lua sobre a minha solidão, as estrelas 
conspiram enquanto corações suspiram em 
novidades,  há pelo menos um novo começo 
a cada noite em cada canto da cidade e vários 
açoites aos desprezados, vários "nadas", a beleza 
a ser contemplada, um sorvete, um cinema, um passeio 
de bicicleta quase sempre sem ninguém,  mas até que
passo bem, nas gírias de hoje diriam "Embaçado", mas
eu acho engraçado e estranhamente gratificante estar
morto pra certas pessoas e mesmo assim caminhar por
aí, me alimentar, sentar na grama do Dragão do Mar,
vagar pela areia do aterro, constantemente me matam
e me sinto mais vivo, os amigos imaginários que convivo
saíram pra encher a cara e eu torço para que não voltem,
me pego flutuando no mar à noite, cansei de esperar ser 
salvo, assobio cantarolando com a brisa aquela canção de 
Marisa, "Não é fácil, não é fácil"

domingo, 3 de janeiro de 2016

Monólogo de um errante




A visão da chuva tórrida do interior de um veículo morno, aqui do temporal avisto esse automóvel ali parado, diferentes sensações e pontos de vista; aqui fora o mundo é frio e caótico, inseguro, pensamentos obscuros me perseguem, mas pela graça dos céus o desejo de paz não me abandona, aproveito o silêncio do meu vagar, tanto tempo sem par e sem grandes planos, muita gente me define "engano", a porcentagem restante só me acha louco, não faço o tipo interessante nesse mundo distante que escolhi viver, quem na verdade gostaria de conhecer uma pessoa em quase que constante isolamento, né? O assobiar do vento, uma cantiga triste e muitas vezes me pergunto se realmente existo, contato humano, preciso mas não me familiarizo, eu simplesmente não consigo me encaixar, ó quão peculiar e simples é esse universo ao redor de mim, não sinto que inspire alguém, mas isso também já nem me interessa mais, de qualquer forma o mundo nos recebe ou nos rejeita pelo que temos ou não em mãos, tudo o que anseio nesse momento é adormecer na quietude de uma semana invernal, uma semana inteira como se nunca tivesse existido, acordar como se estivesse renascido em outra realidade, caminho pela cidade úmida sob um céu de chumbo, lá em casa minha caixa de e-mail permanece vazia, a melancolia agora já não me sufoca, apenas me abraça, chove, chove, chove e me pego achando graça...